Uma coisa é todos concordarmos que Vítor Pereira tem lacunas sérias ao nível da eficácia do seu discurso. E nem vale a pena compará-lo a Villas-Boas, que é um caso de excelência a esse nível, talvez apenas equiparado a um Mourinho ou um Guardiola, para falar nos treinadores mais mediáticos. Outra coisa é considerarmos que ele ontem esteve mal nas declarações que fez, o que, na minha opinião, não aconteceu. Foi, de facto, a análise correta, a que ele fez no final, e que o poncio reproduziu: nós fomos maus na primeira parte, jogámos com o coração na segunda, o Gil foi digno, lutador e eficaz. e a arbitragem vergonhosa, prejudicando-nos exemplarmente.
O que corre mal no discurso de Vítor Pereira não é quando jogamos mal, porque aí ele sabe bem identificar o que fizemos mal (apesar de nunca ou raramente o termos visto assumir o mea culpa, como, por exemplo, acontece com Mourinho quando as coisas correm mal, numa atitude, acima de tudo, de proteger os jogadores). O que corre mal no seu discurso é quando jogamos assim-assim, ou benzinho, e o nosso treinador reage como se tudo estivesse bem e fossemos capazes de comer Barcelonas e Madrids ao pequeno-almoço. Isso é o que me irrita e sempre irritou em Vítor Pereira: a sua tendência para sobrevalorizar o que de menos mau temos feito nesta época (digo "menos mau" porque as coisas REALMENTE boas foram muito poucas).
Depois, tem havido, ao longo desta época, erros de palmatória na forma como aborda algumas questões colocadas pela comunicação social. Um exemplo: a forma desproporcionada como se atirou a Jorge Jesus, logo no início da época, quando o treinador do Benfica achou que tinha sido mal marcado um penalti a nosso favor, na primeira jornada. Logo aí achei que Vítor Pereira tratava de emular Villas-Boas e o seu discurso agressivo e contundente (com efeitos positivos para dentro do balneário), numa atitude típica de principiante que espera a primeira oportunidade para se afirmar perante os próprios adeptos. Houve outros exemplos. O slogan desgastado do "Somos Porto" e a promessa de que a equipa estaria em constante evolução e que os nossos adversários teriam muito com que se preocupar são alguns. Mais recentemente, irritou-me solenemente a resposta "Quanto a isso, só tenho uma coisa a dizer: Porto, Porto, Porto, Porto", a propósito da frase de Jesus em que este dizia que o FC Porto quer muito ganhar a Taça da Liga.
É claro que este texto não teria sido escrito se estivéssemos bem, se a equipa não parecesse perdida em campo, se Vítor Pereira tomasse as opções corretas na formação do 11 titular e na leitura de jogo, se a SAD, mais concretamente o Presidente Pinto da Costa, não tivessem gerido tão mal a contrução do plantel. A ver vamos se, em janeiro, e com Lucho e Janko, ainda vamos a tempo de alguma coisa...

